segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Uma aficcionada pelo Tempo

Creio que essa afirmação me define muito bem. Para vocês notarem quão enorme é o fascínio que o Tempo exerce sobre mim, dei um jeito de inseri-lo até mesmo nas minhas próprias pesquisas musicais. Pretendo, aliás, torná-lo o centro delas daqui em diante.
Traçando um paralelo a partir do meu métier e minhas indagações a ele referentes, é curiosíssimo como nosso tempo psicológico tem um ritmo totalmente diferente do cronológico. Isso é bem sabido de um performer: quando tocamos, é muito comum não sentirmos o tempo cronológico passar, e nossa experiência de performance parece sempre de menor duração. Nosso tempo psicológico interfere, pois, na forma como apreendemos o tempo cronológico. Entretanto, não é raro o público apreender o mesmo fato de um modo completamente diverso.
Percebemos, portanto, como o nosso tempo psicológico particular difere daquele que possuem as pessoas ao nosso redor. Assim sendo, podemos concluir que existe uma infinidade de tempos, como se cada indivíduo estivesse, na verdade, num universo completamente estranho ao outro. Logicamente, há tempos particulares que concordam entre si, porém estes nunca serão idênticos. Eis uma das artes de viver: aprendermos a conviver com o tempo do outro, que obviamente nunca será o nosso.

E é exatamente a questão do tempo que me incomoda neste momento. E não se trata nem do tempo musical, tampouco do meu tempo...

domingo, 26 de agosto de 2007

Procura

Estou em busca de novas palavras e novos sons.
Palavras estranhas ao meu vocabulário, que definam precisamente as coisas difusas diante de mim.
Preciso urgentemente de novas cores no meu universo sonoro, uma gama de timbres que por mim seja desconhecida, para contrapô-las ao meu silêncio e o tornar ainda mais enriquecedor.
E agora encontro-me justamente a intercambiar palavras e sons - reflexo do meu próprio mundo particular, um eterno diálogo entre o dizível e o indizível, o claro e o escuro, o movimento e o repouso...
O que outrora era um embate, hoje é, simplesmente, complementaridade.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Gris

Anestesiada.
O embate não é mais doloroso.
Uma dor que não mais se sente,
grito que se cala,
lágrimas que apenas ameaçam cair.
Tristeza em sombras, seu vulto somente.
A ânsia já está dormente.
O fogo espera em brasa; talvez se apague.

Os dias passam
longos quentes ensolarados
nebulosos tediosos calmos
inertes sombrios saudosos
silenciosos inquietos
e passando passam passam passam
como o tempo a escoar, esvaindo-se,
eternizando frações de momentos
que não deveriam ser lembrados.
Não deveriam ser sequer vividos.
Será?

As palavras se perdem e se tornam vazias
num tilintar taciturno.
Voam, mas não encontram pouso.
Pairam numa dimensão quimérica
e desenham piruetas de jaspe.
Aonde irão?
Todas agora parecem vazias.
As canções, outrora dotadas de significado,
hoje tinem como um sino.
Nada mais se mistura ao deserto particular,
à aridez peculiar.
A doce voz perdeu-se; talvez se cale.
O grito? Quer ser ouvido, mas emudeceu.

Restou apenas o silêncio,
que agora não é nem refúgio,
nem dor.